Blá, blá, blá.


E eu queria me afogar nesse mar de confusão que você era, mas você ficava sensata no instante em que me aproximava. E a cada passo que eu dava pra sua direção você dava dois para trás. Eu queria aprender seu jeito, mas você mudava toda vez que eu lia o manual de instruções. Eu pegava uma lupa para ler entrelinhas, mas você virava a lupa para o sol e me cegava. Eu sempre corria atrás de você e você se escondia em vielas e becos e quando eu te alcançava você dizia não querer mais brincar.
Aí eu desistia, pegava minhas coisas e ia assim embora, debaixo da chuva gelada ou do sol escaldante, voltava pra casa, horas mais cedo que o previsto. E quando eu chego a casa tem mil mensagens suas na secretária eletrônica, perguntando por que de eu ter ido embora cedo, porque eu não esperei você para voltarmos juntas, falando que estava tudo bem agora porque você achou outra pessoa pra voltar contigo e uma última pra falar como estava tudo ótimo com aquela pessoa e como tua noite foi boa.
E eu ali, sentada no sofá, torturando-me com cada palavra que você disse e fazendo meu coração murchar. Dormia ali mesmo, sozinha, triste. Dormia assim para acordar com um telefonema teu: São oito da manhã. Eu sei. Pra que ligou? Precisava falar com você. O que? Nada, só estava com saudades. Ok, Quero dormir. Não, espera! Fala. Por que você faz isso comigo? Faço o que? Me deixa assim, sem dormir. Eu não faço nada. Faz sim. Não é de propósito.
Aí eu desligo e deito novamente, de olhos fechados e volto a me torturar com tuas palavras. Acordo só de tarde, com você na minha mente, suas palavras não me deixaram ainda. Resolvo te ligar, pedir desculpas, qualquer coisa, só pra ouvir tua voz.
Oi. Boa tarde. Desculpa por mais cedo, você acabou me acordando. Ah, esquece isso. Ok, eu liguei pra falar que eu vi algo na televisão e lembrei de você. Ah, o que? Nada demais, era uma música. Qual música? Não sei, mas tinha um trecho bonitinho sobre coração-partido. Ah, você ligou só pra isso? É… Eu preciso desligar, vou sair com umas meninas agora. Tudo bem. Tchau. Beijo.
Já está ficando um porre sentar aqui nesse sofá velho e desconfortável para ficar me machucando com tuas palavras. Quero sair, até para praia eu vou. Quero alguém pra ir comigo. Ninguém está em casa, todos estão vivendo a vida e eu aqui estacionada no presente porque quero reviver o passado. Pego uma folha e começo a escrever, preciso te tirar do coração, da mente, preciso te tirar de mim… Porque eu sempre quis me afogar nesse mar de confusão que você é…




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Sentou-se no sofá e colocou os pés 36 na mesinha de centro, bateu no cinzeiro, derrubando um poco de cinzas por ali, mas nem notou. Sorriu pra mim antes de deitar a cabeça e cantarolar aquela música que eu odeio, mas você me fez decorar. “Como é essa parte mesmo?” e eu respiro fundo e viro as costas pra você, cantando na cozinha baixinho, mas alto o suficiente pra você ouvir: “Eu não vou mais estar do teu lado, mesmo assim, sempre eu vou te amar.”, você mesma terminou o verso antes de bater palmas e dar aquele seu riso divertido. Parada na porta, eu não pude evitar de olhar para tuas pernas cobertas até metade da coxa pela maior camiseta minha que tinha no armário. Sorri sozinha ao notar o quão linda você fica com esse vermelho desbotado e essa estampa de uma cidade do nordeste que visitei há uns anos atrás, notei o quão lindo seu cabelo fica quando o lado esquerdo, que é o lado em que tu dormes, fica mais bagunçado que o direito e ainda mais linda quando em vez de tentar arrumar o lado esquerdo, bagunças o direto. O quão lindo teus olhos verdes ficam quando o sol das 18 horas atravessa a porta de vidro reflete neles. E o modo que tuas sobrancelhas se arqueiam quando nota que estou te observando e em seguida com aquela cara de criança, você abre os braços e me olha pedindo um abraço. Faço você se levantar do sofá e deixo minhas mãos pousadas na tua cintura, murmuro uma baladinha dos anos oitenta enquanto dançamos pela sala inteira, bagunçando o tapete, batendo nas paredes…No meio da segunda música você me puxa pela mão e vamos tropeçando pela escada, cada degrau será um hematoma novo na minha canela amanhã, mas nem ligo… Não tem como ligar quando você está parada na porta do quarto e olhando pra mim desse jeito.

Eu não sei o porquê, mas a vida é tão fácil quando é vivida ao teu lado. Os dias de sol mais animados com teu sorriso e os de chuva mais reconfortantes com teu colo. Não vivo mais no singular, estou amando viver nesse plural, até minha escova de dente na pia arrumou um par. Não cante nunca aquela música pra mim, nunca mais. A letra é legal e a melodia boa, mas eu não gosto de pensar em você me deixando, mesmo se continuar me amando.


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Em algum lugar dessa nossa história inacabada (talvez nem começada), eu passei a te amar, assim, de uma maneira louca e indescritível.
Talvez eu tenha me apaixonado por esse teu temperamento instável, por tua voz manhosa, por teu sorriso malicioso… Apaixonado-me por tua cara de sono, tuas ligações de madrugada e teus sumiços repentinos. Na verdade, acho que me apaixonei pelo conjunto todo. E com ‘conjunto todo’, me refiro à todas as qualidades e inúmeros defeitos.
Inúmeros mesmo, não consegui até hoje chegar na metade e já usei um bloquinho de “post-it” inteiro. Estão por toda minha parede, essas pequenas folhas amarelas, cada uma dizendo um defeito, justificando o porque eu deveria deixar de te amar, mas não consigo: Esse teu orgulho bobo, ciúmes excessivo, humor oscilante, grosserias constantes…
Porra, guria! Porque é tão difícil te odiar?
E tu com esse olhar indiferente, sentada na minha cadeira, na minha mesa de jantar, fazendo parte e acabando com a minha vida… Foi de propósito, né bebê? Você só precisava causar dor em alguém e eu estava ali, na minha, sem dizer um piu. Era uma ótima chance, né, bebê?
Sabe, eu sabia que isso ia acabar acontecendo. Você acha que me engana, só acha. Teus olhos te deduram, nunca precisei perguntar se ‘tal’ coisa era verdade, ou se você estava falando sério. Eu sempre vi a verdade por trás deles. E olhe como o coração da gente é bobo, bebê, olhe: Mesmo eu sabendo que farias isso comigo, que me deixarias miserável, eu te amei. Mesmo sabendo que no final de tudo eu sairia com o coração partido e a vida temporariamente sem sentido, eu mergulhei fundo nesse amor suicida de uma parte só.
Quando me ligavas de madrugada, com a voz rouca e só pedindo para ouvir palavras de reconforto, só um ‘tudo vai ficar bem’, eu sabia que tinhas ido atrás dele e ele já não estava na tua.
Precisavas partir um coração porque não aguentava mais se achar a única sofredora na história, né pequena? Ah, eu sei, eu sei… São tantas certezas. Acabando esse jantar, não sorria pra mim, sabes que não resisto. Não se ofereça pra lavar a louça. Se for se oferecer para algo, que seja pra consertar meu coração. Mas tu não vais, né? Então, só vai embora, por favor, deixa eu tentar me convencer a parar de te amar.


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Respire.
Respire.
R e s p i r e.
Fundo.

Acalme-se.
Vamos…
Olhe pra mim.
Não, não.
Olhe só para mim.
Eu…
Eu…
Não, respira.
Tá tudo bem.
Tudo.
Bem.
Isso.
Fica aqui.
Olha pra mim.
Não fecha os olhos.
Não.
Nã…

Eu amo você.


Você cortou seu punho em dois lugares diferentes, duas linhas paralelas na vertical. Por que? Você não queria morrer. Você teria me falado se quisesse. Não teria?
Você sangrou por dez minutos antes de eu te achar. Sorriu quando nossos olhares se encontraram. Por que? Você me queria ali? Você ainda me amava. Não amava?
Tenho mil perguntas pra você e não há maneira de encontrar respostas, procurei já nas músicas e canais de TV, diários e fotos nossas. Só faz assim, me espera. Preciso te ver.

Não lembro como se respira. Meu coração bate forte. A escuridão me abraça. Você. Você. Tá tudo bem. Sim. Sim. Vem. Eu amo você.


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Para um pai que não aceita.

Pai, eu continuo o mesmo. Ainda assisto aos jogos de futebol na quarta, ou quinta ou nos fins de semana, ainda escuto aquela banda de rock e discuto com os motoqueiros no transito. Eu ainda gosto da carne mal passada e do feijão sobre o arroz, prefiro Pepsi à Coca e refrigerante de garrafa de vidro. Ainda deixo a toalha molhada sobre a cama e às vezes esqueço a tampa da privada levantada.
Ah pai… Se o senhor soubesse que não mudei em nada, que penteio o cabelo para o mesmo lado que mamãe sempre o fez… Que ainda compro aquele sabonete que tinha na casa da vó e ainda tenho a terrível mania de batucar meus dedos sobre qualquer superfície.
Sou o mesmo menino que você ia buscar na escola todos os dias úteis da semana, e no futebol aos sábados. Aquele que dedicou o primeiro gol de bicicleta pra você e logo em seguida foi suspenso do jogo por ter socado um menino porque ele falou ‘uma palavra feia’. Aquele que você encontrou matando aula no parque do centro e levou pela orelha até o carro e me fez ouvir um sermão de uma hora até em casa.
Só tem uma coisa que mudou. O fato de você saber a verdade. Eu não mudei. Eu não escolhi. Eu não fiz nada. Só deixei a verdade ali no criado mudo, na porta da geladeira, na música da televisão e escrito na minha testa. Se você se cegou o tempo todo, fingiu não ver e agora faz esse show inteiro, na frente da família inteira. Por que pai? Por que você prefere ver seu filho sofrer a aceitá-lo? Pai, eu estou feliz agora porque eu me aceitei, eu que sofro preconceito fora de casa e no trabalho, eu que tenho que ouvir piadas de mau gosto e brincadeiras sem graça, eu que já apanhei e já bati por isso. Eu já sofri demais por isso, não posso permitir meu próprio pai me fazer ainda mais miserável.

Eu amo o senhor.
Do seu filhão camisa 10.



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N/A: Diálogos a seguir são trechos da história que eu ainda pretendo escrever. Ocorre tipo numa rehab. Uma personagem era viciada e a outra tem algum disturbio mental, possivelmente esquizofrenia, ainda tenho de pesquisar e blábláblá.

- Eu vou pra casa.
- Ok. Volta quando?
- Não volto, ruivinha.
- Por quê?
- Não preciso mais. Mas vamos nos ver…
- Fora daqui?
- Sim.
- Não sei…
- Você não precisa estar aqui, você é super normal.
- É. Não preciso.
- Se cuida. Me liga.
- Me cuido. Te ligo.

Sorrisos.



- Eu gosto muito de você, ruivinha.
- Eu também gosto de ti.

Essa pequena confissão serviu perfeitamente para o pequeno mundinho que elas criaram. Num labirinto de cicatrizes, juntas se perderam e juntas saíram.



- O que é isso?
- O motivo de eu estar aqui.
- Você tentou se matar?
- Eu também tenho cicatrizes. Mas não fui eu quem as fez.
- Aonde?
- Braços e pernas.
- Sinto muito.
- Não sinta. Eu não senti.


Ela a encontrou parada em frente ao espelho.
- Ei, eu…
Seus olhos focalizaram a tesoura não mão da menina e todo o cabelo no chão.
- Ei, ei, ei. O que é isso?
- Nada. Eu só… Não era eu.
- Não tem problema, você ficou melhor de cabelo curto.
- Não eu não fiquei. Mas, não era eu. Não era.
- Relaxa, você tá linda.

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